Quarta-feira, Maio 27

Terça-feira, Outubro 28

Análise ao Capítulo VI – O Individualismo Absoluto. Max Stirner (1809-1856)

Inicia Jean Préposiet a Terceira Parte da sua Obra, inteiramente dedicada aos Grandes Teóricos do Anarquismo, com um longo ensaio sobre Johann Kaspar Schmidt (n. 25.Outubro.1806 em Bayreuth, m. 26.Junho.1856 em Berlim), que usando o pseudónimo de Max Stirner deixou como Obra mais relevante Der Einzige und Sein Eigenthum (O Único e a sua Propriedade) publicada em 1844 em Leipzig.

Se a inclusão de Proudhon, Bakunine e Kropotkine é obrigatória na galeria daqueles que tiveram preocupações em formular as suas ideias teoricamente, e se estas são unanimemente aceites como sendo de teor libertário, o mesmo já é discutível quando nos referimos a Max Stirner. A sua Obra foi proscrita na época pela sua escandalosa e até 'imoral' radicalidade individualista e (diremos agora apoiados em toda a literatura sobre o autor) libertária. Certo é que foi mais citado por figuras como Edmund Husserl ou Carl Schmidt do que por respeitáveis anarquistas. São até intrigantes as parecenças com o pensamento de Nietzsche, cuja obra, posterior no tempo, tem sido alvo de acesa polémica, por suspeitas de plágio. Até Marx e Engels foram seus detractores, dedicando grande parte de A Ideologia Alemã a refutar as suas ideias.

Não sendo eu um Anarquista e correndo o risco da controvérsia, não poderei estar mais de acordo com Préposiet na sua inclusão de Max Stirner nos Grandes Teóricos do Anarquismo. De facto, Stirner não pode ser 'catalogado' cabalmente como um teórico anarquista, foi mais um solipso (i.e. egoísta, aquele que vive só para si), contudo é inegável que no seu pensamento se encontram muitas das críticas precursoras (ao Estado, à Burguesia, etc.) fundamentais à constituição do Anarquismo como doutrina política. Porém ele próprio não se identificaria como sendo um anarquista (rótulo difuso na sua época) e repudiou a Revolução, afastando-se de movimentos sociais que visassem a transformação da sociedade.

A análise ao pensamento de Stirner alcança-se a partir de O Único e a sua Propriedade, cuja ideia principal foi assente no Egoísmo e fundou aquilo que hoje se pode denominar de Anarquismo Individualista. Percebe-se agora melhor porque Préposiet insistiu tanto, nas anteriores partes da Obra, nesta matriz – Individualismo como condição Sine quad none da doutrina anarquista. Se antes nos pareceu algo despropositado, agora consideramos justa esta aproximação, e o resultado foi o Capítulo melhor conseguido por Préposiet, onde aplica bem as suas qualidades como filósofo.

A minha boa aceitação (não sem sentido crítico, ou como o tão doravante referido Hegel denominava de ‘pensar negativamente’) deste Capítulo prende-se com o facto de me aperceber da importância de Max Stirner e da sua Obra, que em oposição ao germem da 'Teoria da História' (onde a vontade de liberdade é condicionada seguindo uma lógica determinística) se faz, cremos, uma crítica às construções universalistas da libertação (que fracassaram mais de 1 século depois!).

Neste Capítulo VI Préposiet traça primeiramente o perfil de Stirner e o seu tempo (pp.135-142). Depois de uma despropositada revisão à Situação social e política da Alemanha (mais útil a quem se interessar pela Konservative Revolution), apresenta O Ambiente intelectual Os herdeiros de Hegel divididos em 2 grupos os 'Velhos Hegelianos' (ou de direita) e os 'Jovens Hegelianos' (ou de esquerda), onde põe a nota da divisão entre a defesa da imortalidade da alma de uns e a radicalização material pela crítica religiosa e política de outros, identificando Bruno Bauer nos segundos, com quem Stirner conviveu no seu Die Freien (Grupo dos Livres) em Berlim no Hipple's Weinstube durante 4 anos. E insiste nas pp.140-142 nas ligações de Stirner e a esquerda hegeliana, que veremos depois algo contrariadas na sua Obra. A vida de Stirner (Referências biográficas, pp.139-140) é descrita como academicamente falhada e humanamente miserável.

Mas é na análise da Obra O Único e a sua Propriedade onde Préposiet se demora mais. Comete, no entanto, uma falha grave. Porque, sendo Stirner fortemente influenciado pela filosofia de Hegel (Georg Whilhelm Friedrich,), do qual foi seu discípulo na Universidade de Berlim entre 1826 e 1829, conviria fazer uma curta introdução ao chamado Método Filosófico Dialéctico (ou Histórico), para o entendimento de todo o restante Capítulo, que prossegue em nível pouco acessível a principiantes.

Tal introdução era indispensável, e como Préposiet não o fez, proponho-me colmatar tal falha, apresentando *:

O Método Dialéctico foi iniciado por Heráclito e revalorizado por Hegel; onde todas as coisas são como processos devir, realidades em movimento, que experimentam contínuas transformações através de um jogo de contradições, que vão sendo superadas. Em A Fenomenologia do Espírito Hegel apresenta a sua Dialéctica: a existencia de algo (Tesis) exigia a existência do seu contrário (antiTesis), da luta entre ambos surge a Síntesis, que implica a criação de algo novo – uma nova Tesis que reinicia o ciclo.

Voltando a Max Stirner, este seguindo o Modelo de Hegel (invertendo-o imediatamente, cf. pp.146-147) impõe o dualismo Materialismo Vs Idealismo, que resolverá procurando um 3º sujeito que explicará os 2 primeiros, encontrando assim o Egoísmo como a sua nova Tesis. Fixa-se a tríade de Stirner:

Materialismo Vs Idealismo = Egoísmo

[* O restante parágrafo trata-se de uma tradução adaptada de Curso de Teoría Política, p.149 de Arnoletto, E.J., 2007. Edição electrónica gratuita disponível em www.eumed.net/libros/2007b/300/.]

[O ensaio de Préposiet, correspondente ao restante capítulo, pode ser esquematizado em 4 partes, a saber:]

1/4 – Uma Crítica Libertária (pp.142-149)

Na qual procura apontar as razões para a fixação de Stirner entre os pensadores libertários, sendo a fundamental a “...vontade de colocar fora de circuito todas as «Causas» (Causa de Deus, Causa da Verdade, Causa da Liberdade, Causa da Humanidade, etc.)...” p.142. A fundação de todo o raciocínio de O Único e a sua Propriedade está na redução de fundar “...a minha causa sobre nada»,...” p.142, preâmbulo da Obra (apropriação da expressão de Goethe - Ich hab, mein Sach’ auf Nichts gestellt!Eu fundei a minha causa sobre o nada!).

Porque em lugar de servir desinteressadamente aos grandes egoístas (Deus, Réis ou Bem), decide Stirner ser egoísta ele mesmo, e fazendo “A negação dos predicados deve, pois, levar-nos à afirmação do sujeito.” p.143, seguindo os próprios interesses como pessoa única que é, regressando ao “...Eu, portador das significações.” pp.142-143, que é “...,o Ser supremo já não (é) Deus, mas o Homem. Homo homini Deus.” P.143. Não há outro ponto de referência que não os valores elegidos pelo Único, assim toda a realidade é reduzida ao individuo, i.e. os valores universais como a Verdade, a Justiça ou a Liberdade, devem dar lugar ao único valor que se funda no Único – a Propriedade (Eigentun). O Homem livre destes valores tem finalmente propriedade sobre si mesmo.

Guiando-se pela associação filosófica de Feuerbach ** à entidade individual, defende porém essa associação mas ao Homem ***, fazendo da vida humana como se de um percurso Dialéctico se tratasse. Stirner utiliza (no seu Capítulo 1º) o exemplo do crescimento do ser humano e a sua relação com o mundo, desde a fase “...criança é realista (Materialismo). Interessa-se sobretudo pelo objecto. O Jovem, mais voltado para os seus pensamentos do que para os objectos, representa a fase idealista da existência (Idealismo). Finalmente, no estádio da maturidade, é o egoísmo que domina (Egoísmo).” p.148.

[** Para Hegel a Dialéctica é característica do mundo das ideias, já para Feuerbach, a Dialéctica é atributo do mundo material.]

[*** Stirner escreveu: “Outrora, exigia-se que o indivíduo se sacrificasse à causa de Deus. Actualmente, exigi-se-lhe que o indivíduo se devote, não menos piamente, à causa da Humanidade”, e acusava que “A transcendência moderna do universal substitui a antiga transcendência do sobrenatural.” p.144. O que constituía uma crítica aos Hegelianos de esquerda por, depois de matarem Deus, logo o substituírem por outra coisa, “Muito pelo contrário, o humanismo ateu permanece essencialmente religioso:...”p.145.]

No 2º Capítulo de O Único e a sua Propriedade, Stirner aplica ao desenrolar da História a mesma tríade da descrição da vida do Ser humano. Criticando mais uma vez os amigos Die Freien por não ultrapassarem a fase idealista, que entende estar em colapso, sendo necessária uma nova síntesis. Esta nova síntesis tem obrigatoriamente de ser uma concepção dentro do mundo, mas em torno do interesse do Único – O Egoísta.

Termina Préposiet esta parte com o extenso 1º parágrafo da p.149. Nele faz uma explicação pouco abonatória da sua posição perante Stirner, assumindo a interpretação de “...Marx (que) fez bem em dizer que onde Stirner imagina apreender o mundo como sendo seu, como sua «propriedade», mais não faz do que apreendê-lo como é forçado fazê-lo, e aquilo de que ele julga apropriar-se, não é o mundo, mas as visões que este lhe causa.”. Mais relembra “...Sartre, em O Ser e o Nada (...), trazem um desmentido sem apelo à tese de Stirner.”. Está clara a posição dogmática (e Marxista) de Préposiet!

2/4 – Stirner Contra o Liberalismo (pp.149-157)

Cínico da Modernidade, Stirner anuncia o Liberalismo (o trunfo da Modernidade) como um fim em si mesmo, uma ‘Ideologia do Único’. A sua crítica incide sobre as 3 formas (por ele encontradas) de Liberalismo: Político, Social e Humanitário.

Se “No espírito de Stirner, o liberalismo opõe-se ao individualismo.”p.150, porque o igualitarismo tem “...sobretudo (com) o objectivo de negar a originalidade e a singularidade:...”p.150. E se “No Estado «liberal» burguês, aquilo a que se chama «liberdade» individual não é a autonomia do eu. A liberdade é aí definida negativamente.”p.152, porque tem que estar ao serviço do Estado Jacobino. Já “No socialismo comunitário (liberalismo social), o homem já não é apenas definido como cidadão, como pretende o «liberalismo político», mas ainda como trabalhador.”p.155, nele o homem ainda tem um estatuto pior, o de escravo. Portanto para Stirner “...se o liberalismo político sacrifica o egoísmo individual à vontade geral e se o liberalismo social despoja o indivíduo em benefício da colectividade, a crítica humanitária, por sua vez, subordina a originalidade do eu ao pensamento abstracto. Com o humanitarismo crítico, a alienação do Único fica completa:...”p.156.

3/4 – A Individualidade Stirneriana (pp.158-162)

Nesta parte Préposiet explica melhor o que é o Individualismo Stirneriano, no qual “«O Egoísmo é a lei fundamental...”p.158. “ - Stirner escolheu o egoísmo, universalmente desacreditado, para fazer dele o valor supremo.”p.158; fê-lo invertendo Feuerbach e contrariando os 'Jovens Hegelianos'.

Para Feuerbach o processo dialéctico revelava-se no mundo natural mas também e sobretudo nos fenómenos sociais e humanos, contrapondo o humanismo ao egoísmo individual e ao 'particularismo' religioso. Para os 'Jovens Hegelianos' “o egoísmo está na raiz de todas as alienações, tanto religiosas como sociais ou políticas.”p.158, e é o pecado das 'massas'. Mas para Stirner, que “...proclama a (sua) recusa de qualquer dever, quer se trate de deveres para com os outros, para com Deus, para com a Humanidade ou mesmo para consigo mesmo.”p.159, o Eu é o sujeito valórico, o objecto a ser preservado, a ter prazer na vida, e afirma: Não quero a liberdade dos homens, não quero a igualdade dos homens, só quero o meu poder sobre os homens; quero que eles sejam minha propriedade, ou seja, que sirvam para o meu gozo.”p.158.

Opondo dialecticamente o conceito de Propriedade (Eigenheit) ao de Liberdade (Freiheit), Stirner escreveu “«Eu sou livre relativamente àquilo que não tenho; sou proprietário daquilo que está em meu poder, ou daquilo de que sou capaz.»”p.162. A apropriação ou 'reapropriação' do mundo pelo Eu, é o ponto principal do pensamento stirneriano - Se consegui libertar-me das coisas, agora as coisas vão tornar-se minhas.p.159. Portanto a “...Individualidade, (que) é a única, segundo ele, que dá um sentido à liberdade.”p.160.

Ser 'proprietário' é mais do que ser 'livre'. “O autor de O Único introduz então o conceito bastante obscuro de «propriedade», com o objectivo de exprimir a ideia de uma retoma de posse directa e imediata, pelo sujeito, da sua individualidade concreta, corpo e espírito.”p.162, esta individualidade é “...aquilo que existe em nós de «originalmente», de essencialmente livre.”p.162.

A “...propriedade, por outras palavras (é), a minha unicidade, a minha originalidade individual, é verdadeiramente o meu ser.”p.162.

4/4 – A Filosofia de Stirner (pp.163-170)

O ensaio de Préposiet sobre Max Stirner termina com algumas considerações pessoais.

A primeira é sobre a validade do Projecto Stirneriano, concluindo que “A luta conduzida por Stirner não visa a transformação do mundo, mas sim a sua neutralização.”p.163. Préposiet aniquila qualquer papel de relevo, que Stirner possa ter tido na História do Pensamento, e em concreto na História do Anarquismo. Ao expor a indiferença do germânico à acção revolucionária, e ao julgar entrincheirar o seu projecto ao nível da consciência, “...por uma inversão radical da atitude natural em relação à realidade.”p.163, Préposiet reduz a Filosofia Stirneriana a Nada. Para mim é exactamente porque “...ignora soberanamente as questões económicas, sociais [não será bem assim!] e técnicas, para se precipitar com impaciência naquilo que lhe parece o essencial: a sua natureza própria.”p.163, que Max Stirner constitui interessante objecto de estudo.

Depois analisando a essência do método de Stirner (A Dialéctica Stirneriana, pp.164-167), Préposiet isola ainda mais o autor, porque afirma: “Stirner instala o seu eu numa solidão metafísica total.(...)Levando a singularidade até às suas consequências mais extremas, Max Stirner cai na pura imediatidade tautológica (?!).”p.167. Acusa-o de “...instalar-se numa solidão ontológica inexpugnável e fazer do mundo a sua representação.”p.164 e “...rejeita a possibilidade de uma verdadeira troca com outrem. O egoísta está só.”p.165.

É certo que Stirner se pôs a jeito, porque o seu Individualismo Absoluto converte o Homem num ser solitário, nómada, asilado da sociedade. É também certo tratar-se de um 'solipsismo prático', como Préposiet lhe chama, porque basta-se a si mesmo e nega qualquer tipo de mediação. - “É apenas de mim que deriva todo o direito e toda a justiça...”p.167. Mas Préposiet omite a solução Stirneriana para ultrapassar o isolamento pela proposta de criação de um 'Sindicato de Egoístas' (Der Verein der Egoisten), unidos em torno de interesses comuns. Este 'Sindicato' seria a aplicação do conceito de Propriedade (Eigenheit) na relação com os outros, identificando-se 3 formas de interacção: Vínculo (relações sujeitas ao dever, como as de Pai-Filho); Propriedade (relações voluntárias com a cedência de um dos dois, como na amizade); e União (relações voluntárias, continuamente renovadas por ambas as partes, com bem estar de ambos, como nas modernas relações amorosas).

Finalmente, em forma de balanço, Préposiet discorre sobre A Filosofia Libertária de Stirner (pp.168-169), com 2 sentidos antagónicos:

Em que é que esta é um fracasso, Em que é que ela permanece interessante.

No sentido negativo “A principal crítica que se pode fazer à doutrina de Stirner consiste no facto de esta ser um anarquismo puramente especulativo.”p.168. É verdade, mas “...o pensamento stirneriano (Não) é completamente platónico.”p.168. É especulativo porque não é operativo, não ocorre principalmente no plano das coisas, ocorre sim no plano das causas – no mundo das ideias. E quem, como Préposiet, se mantém indiferente, na actualidade, à importância decisiva da realidade metafísica do pensamento humano e suas reais implicações no mundo real, e invoca tão facilmente Karl Marx para afirmar que “...(Stirner é) um idealista em busca do mundo quimérico dos seus sonhos.”p.168, dificilmente será digno da bondade receptiva dos seus leitores. E nem um ambíguo “Pois seja!” à caracterização que Marx faz, de Stirner ser um 'pequeno-burguês' que se fecha porque receia o exterior temível (cf. p.169), nos livra da impressão de ter diminuído um 'Teórico Anarquista' que ele próprio chamou à discussão.

No sentido positivo, Préposiet, recorrendo a Henri Arvon [Aux sources de l'existentialisme, Max Stirner, p.177. P.U.F, Paris, 1954] destaca o “...carácter existencial do pensamento do autor de O Único.”p.169. “ E Arvon, estabelecendo um paralelo entre Stirner, o ateu, e Kierkegaard, o crente, mostra-os debatendo-se com o mesmo vigor para não se deixarem enredar nas redes do sistema hegeliano e lutando desesperadamente contra a razão objectiva em nome da experiência individual.”p.169.

É academicamente aceite que Sören Kierkegaard – Existencialista cristão, tem como ponto de partida a filosofia de Hegel, distanciando-se contudo do seu Idealismo e do seu 'Espírito do Mundo' (Weltgeist); criticando-o pela sua preocupação 'historicista', combate a sua 'Filosofia da Unidade', que tinha eliminado a responsabilidade individual pela própria vida. E é aceite que “Kierkegaard foi talvez o primeiro a marcar, contra Hegel e graças a ele, a incomensurabilidade do real e do saber [Nota 63. Jean-Paul Sartre, Critique de la raison dialectique, precedido de Question de méthode. Paris, Gallimard, 1960, pp.19-20]”p.169, antes de Nietzsche 'matar definitivamente Hegel'. Stirner e Kierkegaard partem do mesmo ponto de partida – A Filosofia de Hegel, e os seus caminhos partilham de uma mesma característica – descrevem-se em desvio em relação a Hegel, mas o trabalho realizado resulta diferente. Parece até que o próprio princípio existencialista, de que a existência precede à essência, foi validado por Stirner, mas daí a Stirner ser 'O' precursor do Existencialismo e, em particular, do próprio Kierkegaard vai uma grande distância.

Kierkegaard, apesar de duvidar, e de estabelecer a existência humana assente numa 'Verdade subjectiva' de fé, nunca questiona Deus – O criador do mundo, antes faz uma grande distinção entre essa questão filosófica (que julga indiferente e indispensável à existência humana) e a relação do indivíduo com a mesma questão. Está longe Kierkegaard de Stirner, apesar de ter continuado a sua linha da redução do mundo social ao Eu.

Mas e, dos ingratos Existencialistas ateus (como Sartre) já podemos falar em precedências, sem dúvida, e contudo nunca nenhum o reconheceu?!

Conclui brilhantemente Préposiet (cf. p.170) que “...Stirner procurou, antes de mais, evadir-se do sistema hegeliano. (...) tentou (...), desvelar ambiguidades, contradições, apontando dificuldades teóricas (...) de um pensamento totalitário que se impunha aos espíritos desse tempo (...), recusou deixar-se «deduzir» e integrar vivo no sistema dos conceitos.” De facto se se diz que a Filosofia de Stirner é impraticável, não deixa de ser um grande golpe libertador, um incitamento a um exame de consciência, uma revolta contra as amarras sociais.

A minha análise da abordagem que Jean Préposiet faz a Max Stirner, tomou uma forma que julgo ir no sentido de este último ser bem considerado. O teor crítico do pensamento stirneriano, em relação à sociedade moderna, é marcadamente radical e anti-autoritário (atacando principalmente o Estado, que considerou criminoso, porque tratando-se de um sistema moral onde a Lei é sagrada e o seu desrespeito considerado crime, é ele mesmo criminoso para com a individualidade de cada ser), e portanto inegavelmente anarquista. No entanto foi a sua novidade individual que afastou, e afasta, ‘alarmadas’ com o seu Individualismo, Esquerdas e Direitas ditas Sociais, e até a Nova Direita Post-Liberal. AGORA, SINTO-ME levemente atingido pelo presságio que, me diz que, o meu caro Flávio Gonçalves TAMBÉM SE encontra entre aqueles que se AFASTAm DE MAX STIRNER, ESTOU CERTO?

Amarante, 12 de Setembro de 2008

[Filipe Miguel Dias Cardoso]

urgrund@oninet.pt

Quarta-feira, Agosto 27

Notas à Segunda Parte – NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO ANARQUISMO

Jean Préposiet traça o nascimento e desenvolvimento do Anarquismo (que tem uma história recente) em 4 momentos distintos, a saber: I Internacional, Período de clandestinidade e acção directa entre 1880-1914, Entre Guerras, e Pós-II Guerra.

Se é historicamente verdadeiro que o Anarquismo tem Fundação originalmente como Colectivismo Revolucionário no caldo de diversas tendências políticas no seio do ‘Movimento Proletário’ da I Internacional, e se as expressões libertárias mais significativas se deram em ‘momentos vermelhos’, não é menos verdade que o Anarquismo se afirmou como Ideal político em oposição à tendência Marxista maioritária deste mesmo movimento.

Encontro neste facto, da maior importância para o Anarquismo, simultaneamente a sua força como Ideal estruturado, mas também a sua maior fraqueza. Porque Préposiet ao acentuar a filiação Socialista do Anarquismo, enviesa todo o seu significado. Sendo a utopia libertária transversal a qualquer classe social, e sendo, no meu entendimento, uma construção antes de mais pessoal e individual da vida em sociedade, com a adesão de qualquer individuo, independentemente da sua origem ou visão social, a um bondoso sistema que nega a autoridade, e onde as ligações se fazem por laços fraternos de respeito; a visão unilateral desde uma só condição social inviabiliza qualquer duradoura revolução, porque não é capaz de incluir todos. Bem sei que as revoluções se fazem da imposição da vontade de uns contra a vontade de outros, mas marcando a sua matriz unilateral, não se poderá esperar nunca a adesão, ainda que tardia e pela evidência da sua justeza, daquela parte que se sente excluída logo à partida.

O autor menospreza os contributos de Proudhon e de Max Stirner, e considerando este último marginal à sistematização libertária com aplicação prática, senão atenda-se à frase: “..., o autor de O Único e sua Propriedade é o tipo de pensador isolado, sem influência real no movimento operário.” pp.95-96; e longe da ‘massa operária’; afastando a importância destes dois teóricos, dá (sempre) relevância à via Marxista historicamente predominante do Socialismo, mas tão claramente derrotada no final do séc.XX.

Afirma ainda uma ‘moralmente inaceitável’ violência anarquista, considerando que “..., os libertários encerram-se momentaneamente (entre 1880 e 1914) num activismo minoritário de desespero e num sectarismo irrealista, sem futuro, do qual teriam de sair algum dia, quando a necessidade de retomar o lugar no seio do movimento proletário se tornasse demasiado evidente” p.106.

Sendo assim para Préposiet o Anarquismo só tem sentido de Ser no seio do ‘Movimento Proletário’, mas logo dá os exemplos de Makhno, os Conselhos de Fábrica no Biennio Rosso italiano, e da Colectivização Libertária espanhola, tudo experiências que sucumbiram às tendências ‘legitimistas’ que logo dominaram o Socialismo – é isto que para mim é incompreensível: a insistência na matriz socialista do Anarquismo; quando a História já fez prova que o Anarquismo ao seguir esse caminho encontrará um corredor sem porta de saída! Será uma tentativa de barricar o pensamento libertário num gueto do qual não querem que saia?

No Capitulo V – A Espanha e o Colectivismo Libertário é apresentada numa ligeira versão romântica, pois a falta de fé do autor nestes acontecimentos é clara ao afirmar que: “A maior dificuldade encontrada pelos sucessivos governos da república espanhola, de 1936 a 1939, consistiu precisamente em prosseguir eficazmente as operações militares, ao mesmo tempo que deixava que se desenrolasse uma transformação social, (...), os imperativos da guerra levaram o governo republicano a travar uma revolução popular considerada preocupante na sua espontaneidade, efectuada fora de qualquer controlo estatal e por única iniciativa dos trabalhadores.” p.123.

Mais, é estranha a justificação burguesa para a pouca visibilidade anarquista na Espanha actual: “É verdade que a modernização e a industrialização que a Espanha conheceu desde há meio século transformaram o país e as mentalidades. A memória da mais atroz das guerras civis, ferida apenas cicatrizada mais de meio século depois, inclinou os trabalhadores (sempre os trabalhadores, Irra!) deste país exemplar mais para a procura reflectida do bem-estar, do qual beneficiavam já os seus camaradas europeus, do que para o radicalismo político.” p.114.

Radicalismo é o que é o Anarquismo para Jean Préposiet?!

Amarante, 06 de Agosto de 2008
[Filipe Miguel Dias Cardoso]
urgrund@oninet.pt

Análise ao Capítulo IV – Resenha Histórica

Momento 1 [Até 1880, pp.96-105] – I Internacional

A I Internacional ou AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), teve origem na reunião de St.Martin’s Hall, em Londres a 28.Setembro.1864, e foi a primeira plataforma que reuniu globalmente sob um ponto de vista unilateral a defesa de reivindicações de uma determinada classe social – a emergente e cada vez mais numerosa classe dos operários. Este primeiro advento do ‘Movimento Proletário’ teve em toda a sua duração a forte influência da teorização libertária e evidenciou as incompatibilidades do Anarquismo (de génese anti-autoritária) e o Comunismo (construído segundo os preceitos ‘marxistas’ autoritários).

Façamos, neste contexto, uma síntese à I Internacional, segundo a resenha histórica apresentada na Obra HISTÓRIA DO ANARQUISMO:

1º Congresso (Genebra, 1866) e 2º Congresso (Lausana, 1867) – Domínio da corrente mutualista, influenciado pelas ideias de Proudhon.

3º Congresso (Bruxelas, 1868) – Marcado pela transição para o Colectivismo libertário e o entendimento da implantação do Sindicalismo como forma de luta.

4º Congresso (Basileia, 1869) – Afirmação do Colectivismo anti-autoritário, defendido por Bakunine (aceitação da adesão, pelo Conselho Geral da AIT, da Aliança Internacional da Democracia Socialista, por ele fundada em 1868).

Esta tendência defendia a Abolição do Estado e a Autonomia das Secções e Federações em relação ao Conselho Geral, não aceitando os métodos de organização e disciplina que Marx tentava impor. Na Conferência de Londres (Setembro.1871) Marx impôs um plano autoritário, que previa a constituição de um novo e único partido político operário indispensável ao triunfo da ‘revolução social’, i.e. a passagem do económico ao político e à passagem directa para a conquista do poder. Rapidamente as secções do Cantão de Jura (Suiça) em Congresso Regional (Sonvillier, Novembro.1871), de tendência ‘bakuninista’, rejeitaram esse plano.

[Entre os Relojoeiros de Jura eclodiu um exemplar movimento histórico por 2 motivos principais, destacados pelo autor na obra de Mário Vuilleumier (Horlogers de l’anarchisme. É mergence d’un movement: La Fédération Jurassienne, Lausana, Payot, 1988), de ‘homologia estrutural’ entre a autonomia laboral dos relojoeiros e a autonomia e livre federação das secções do programa libertário anti-autoritário; bem como a manutenção do primado da economia, caro a ambos.]

5º Congresso (Haia, 1872) – Dá-se a cisão, com a maioria ‘marxista’ a rejeitar a exigência ‘jurassiana’ da abolição do Conselho Geral e a suspensão de toda a autoridade da Internacional, expulsão de Bakunine e transferência da sede da AIT para Nova Iorque. Mais tarde, sem uma verdadeira autoridade, na Conferência de Filadélfia (Julho.1876) a AIT é dissolvida.

Em torno da Federação Jurassiana agruparam-se todas as Federações opositoras aos marxistas, e realizaram logo dias depois O Congresso de Saint-Imier (que) foi o verdadeiro acto de nascimento do anarquismo.p.100, cujo programa estabelecia a destruição de todo o poder político e a oposição a qualquer tipo de organização ou partidos. No seguimento, em 1873, o Conselho Geral da AIT suspendeu a Federação Jurassiana.

6º Congresso (Genebra, 1874?) – Inicio da Internacional Anti-autoritária (Mas Socialista à mesma, portanto continuação da I Internacional). Abolição do Conselho Geral, alteração dos estatutos permitindo a Autonomia das Secções e Federações.

7º Congresso (Bruxelas, 1875?) e 8º Congresso (Berna, 1876?) – Marcados pela perda de implantação real e pelo abandono de Bakunine.

9º Congresso (Verviers – Bélgica, 1877) – Dissolução.

10º Congresso (La Chaux-de-Fonds – Suiça, 1880) – Realizado pela Federação Jurassiana aprovando a doutrina e estratégia estabelecida na reunião preparatória (Vevey): Destruição das instituições pela violência; Propaganda pela acção; Passagem à clandestinidade; reclamando o abandono do Colectivismo e com forte influência Comunista de Kropotkine.

Recordo, extra Obra, que ocorreu uma II Internacional, criada em 1904 em Amesterdão, na sua maioria constituída por organizações e partidos que se valiam do Marxismo. O Socialismo científico de Marx teve, a partir da segunda metade do séc.XIX, forte influência política, marcando a ‘vitória nas massas operárias’ da tendência autoritária.

O Marxismo fundando-se numa explicação puramente materialista dos factos económicos e históricos, e considerando o Capitalismo frágil porque a riqueza estava concentrada num pequeno punhado de donos, previu uma inevitável transferência dos meios de produção para as mãos dos operários, desde que devidamente organizados.

A III Internacional (Moscovo, 1921), aparentemente com forte carácter sindical, reagrupou sob o domínio soviético as organizações comunistas, tendo por objectivo a aplicação integral do Marxismo em todos os cenários, tendo uma dissimulada ambição mundial; daí a férrea vigilância e interferência que Moscovo realizou em todo o mundo. A IV Internacional foi fundada em Berlim em 1922 para se opor à III Internacional.

Momento 2 [1880-1914, pp.106-107] – Isolamento e Violência

“Assim, entre 1880 e 1914, os anarquistas terão que passar uma fase crítica da sua história e ficarão, durante muito tempo, separados da massa operária.” P.106.

Préposiet considera que essa fase crítica, reflexo da cisão na I Internacional, marcada pela passagem à acção directa (segundo a resolução estratégica ‘Jurassiana’ de La Chaux-de-Fonds), face às posições reformistas adoptadas pelo (restante?) ‘Movimento Proletário’; encaminharam o Anarquismo para um ‘isolamento moralmente reprovável’. Coligindo provas para o seu raciocínio circular, Preposiet aponta os actos de acção directa violenta como a face mais negra e reprovável da História do Anarquismo.

Devo confessar que a minha primeira consciência do ‘fenómeno’ anarquista, passou (e julgo que se passará o mesmo com muitas outras pessoas) por imagens de actos violentos, como aquela chamada para a folha de rosto desta mesma Obra, e que marcaram viragens históricas muito importantes. Bem sei que o aproveitamento editorial de tal imagem, que se faz na edição portuguesa (ao arrepio da original edição francesa) é decisivo no acto de compra do título. Terá sido um mau engodo, para mim – admito, e para todos aqueles (salvo as devidas distâncias ideológicas, ou de outra qualquer ordem, e de efectiva conduta social) que respeitam a heróica entrega ‘de pela espada’ lutar. A nossa cavaleiresca curiosidade, em conhecer, com esta Obra, mais em pormenor, tais actos (que hoje se consideram de ‘terroristas’, e já houve tempos em que eram designados de ‘revolucionários’), ficou frustrada, porque Préposiet nada adianta. Esperemos pela 5ª Parte – Violência e Anarquia (pp.407-488) para confirmar ou abandonar esta impressão de vazio.

Porém o autor, com uma enorme lucidez – diga-se, não foi indiferente ao Anarco-sindicalismo (ao qual eu próprio tenho uma ligação familiar, e portanto afectiva), reconhecendo o enorme serviço que os anarquistas deram à luta sindical, com a sua enorme vitalidade anti-burguesa, anti-reformista e revolucionária.

Momento 3 [1914-1945, pp.107-112] – Experiências de Autogestão no Entre Guerras

Os 3 exemplos de Autogestão económica ou contidas experiências de Autonomia libertária no período de Entre Guerras destacadas por Préposiet, apoiado numa obra de Daniel Guérin [L’Anarchisme, Paris, Gallimard, 1965 (Idées, nº89)], foram:

O ‘Anarquismo rural’ do ucraniano Nestor Makhno, com exploração comunitária das terras e eleições para as funções de gestão, aquando da Revolução Bolchevique, terminando em 1921 com a sua recusa do modelo soviético (p.107)

Os ‘Conselhos de fábrica’ nas metalúrgicas do Norte de Itália (Milão e Turim), levadas a cabo pelos socialistas de esquerda e pelos anarco-sindicalistas, durante o Biennio Rosso (1919-1920), que marcado pela espontaneidade libertária fugiu ao controlo do Partido Comunista Italiano e esvaziou os dirigentes de poder, encaminhando-se para uma verdadeira Revolução; que por receio de uma violenta reacção foi reprovada por votação democrática (no Conselho Geral da Confederazione Generale del Lavoro - CGL, reunido em Milão em 9-11.Setembro.1920, com 54% dos votos) (pp.108-111)

O ‘Colectivismo Libertário’ ocorrido na Revolução Republicana Espanhola, que unanimemente é tido entre os historiadores como a experiência suprema do Anarquismo posto em prática, totalmente fora do controlo soviético e a mais forte das forças sociais da época (pp.111-112) [Esta experiência terá um maior aprofundamento no Cap.V, o qual lhe é inteiramente dedicado].

O autor, após inventariar este período, conclui que se trataram de concretizações da utopia libertária num contexto capitalista, e que hoje reivindicadas remetem para esse velho sonho. Sem dúvida que o contexto geral mundial afirmava-se já capitalista, só que as Economias da época não eram tão abertas, tão vulneráveis (nem tão dinâmicas!), nem existia ainda uma efectiva Globalização, como a que hoje existe. Neste contexto ‘infanto-capitalista’ mundial existiam portanto as condições propícias a tais experiências regionais. Digamos que existia uma certa tolerância e um espaço de manobra, que duvido existir actualmente.

Deixo a questão: – A prática dA Autogestão é um património exclusivo da teorização anarquista?

Contudo, Préposiet apresentou-nos apenas concretizações libertárias em ‘cenários vermelhos’, i.e. onde se realizaram revoluções ou exercício de poder de forças da Esquerda; e haveria interesse em indagar o mesmo tipo de concretizações em outros diferentes cenários.

Fica-nos a ideia de que, ainda que autónomas e independentes do controlo ‘moscovita’, estas 3 experiências revestiram-se de verdadeiros momentos revolucionários e foi onde os anarquistas escreveram de facto a História. Sucumbiram porém à força que sempre reivindicou a legitimidade do ‘movimento proletário’ – os Marxistas.

Haverá uma outra pergunta a fazer: TERÃO EXISTIDO OUTRAS EXPERIÊNCIAS LIBERTÁRIAS EM CONTEXTOS ‘NÃO SOCIALISTAS’?

Momento 4 [Pós II Grande Guerra, pp.112-119] – Disseminação Mundial do Anarquismo

Em tempos contemporâneos realizaram-se algumas tentativas de recriar uma unidade aos movimentos libertários – Internacional Libertária, como a ocorrida em 1958 com a criação da Comissão Internacional de Ligação Operária (CILO), extinta em 1965; e em 1968 com a constituição da Comissão de Relações da Internacional das Federações Anarquistas (CRIFA) – (cf. p.119). Apesar deste esforço, o movimento libertário tem ocorrido um pouco por todo o mundo, e aparentemente sem uma unidade visível.

Para a apresentação contemporânea do movimento libertário, por momentos, expressões ou manifestações, uma vez mais cem [sic] exemplo, Préposiet faz um ‘Quadro’ (e este bem extenso no tempo e no espaço) apoiando-se numa só obra (brilhante – diga-se) de Luís Mercier Veja [L’Increvable Anarchisme, Paris, UGE, 1970 (10-18, nº474)].

O caminho seguido foi o mais fácil e não requereu especial trabalho ou pesquisa, por parte de Préposiet. É pena, porque teria aqui um vasto terreno para brilhar, mas não querendo, não teria a absoluta necessidade de escrever: “Actualmente, o movimento anarquista internacional não se presta a uma avaliação rigorosa dos seus efectivos e das suas acções.” p.112. É absolutamente lamentável um ‘investigador’ dar como imensurável, inqualificável, indiscutível o seu próprio objecto de estudo. É o seu próprio atestado de menoridade perante um fenómeno que, sim é complexo, é passível e propício a ratoeiras (como as que humildemente temos vindo aqui a expor, num espírito aberto de franca discussão), mas por isso mesmo fascinante, rico e sobretudo (para o próprio Préposiet) vendável!

Todavia, vejamos, para nossa cultura geral e da História da Anarquia em particular onde ela, mais recentemente, se fez sentir, segundo Préposiet:

França: A Federação Anarquista (FA) representa oficialmente o movimento anarquista francês, tem uma rádio, editora e jornal – Le Monde Libertaire, uma biblioteca, e já teve um teatro. A Organização Comunista Libertária (OCL), ex-ORA (Organização Revolucionária Anarquista – surgida dos seguidores de Maurice Joyeux, autor de Réflexions sur l’anarchisme, director da revista trimestral do grupo Louise-Michel, e defensor de uma estruturação revolucionária para o movimento) publica a revista Front Libertaire (L’Insurgé, pré-1970), separou-se da FA no Congresso de Limoges em 1970, lutando agora com os movimentos de extrema-esquerda.

Itália: A FAI (Federazione Anarchista Italiana) edita actualmente, em nova série, o L’Umanità Nova; e em Carrara situa-se uma tipografia com autogestão a Cooperativa Tipolitografia

Inglaterra: Nota da publicação já interrompida da revista Anarchy. [Faltou uma apresentação e análise do fenómeno Punk na cena musical e cultural inglesa, que teve (e tem) forte eco na Juventude de todo o mundo.]

Holanda: Referência ao Movimento PROVO que esteve na 1ª linha da contestação ao poder em 1966-1967.

Suécia: Esvaziados de protagonismo, face ao social-sindicalismo estatizado, os anarquistas suecos ajudaram os companheiros espanhóis e estónios, entre outros.

Alemanha: Apresentação de Rudi Dutschke, líder da Sozialistischer Deutscher Studentenbund, com base na Universidade Livre de Berlim, que era co-gerida pelos estudantes e centro da agitação política, de tendência ‘maoista’. O atentado fatal a Rudi, em Abril de 1968, foi o prelúdio do Maio de 68.

Bulgária e Países Bálticos: No ‘pré bloco soviético’ as organizações libertárias tiveram grande expressão, surgindo na rua aquando da ‘queda do muro’.

América Latina: Nos anos 30 instalaram-se tendências anarco-sindicais pelo fluxo migratório de europeus.

Uruguai: Nota do serviço público gratuito de medicina social; aplicação dos preceitos anarquistas de Herbert Read na Faculdade de Belas-Artes de Montevideu; experiência falhada de autogestão de uma empresa frigorífica em 1962.

México: Gestão operária dos Caminhos-de-ferro em 1938.

Cuba: Opositores ao regime ‘Castrista’, os anarquistas que foram aliados no derrube de Batista, foram isolados e perseguidos.

Estados Unidos: Após surgirem influências libertárias durante a crise de 1929, reapareceram agora em meios universitários.

Japão: Visibilidade dentro do movimento estudantil.

Austrália: Ideais libertários presentes em pequenos grupos universitários, introduzidos por imigrantes europeus.

Numa longa nota de rodapé (nº44, pp.115-117) é apresentada uma extensa lista de publicações libertárias contemporâneas em França, Itália e Espanha. Esta nota enferma do eterno defeito cultural francófono, pois é algo exaustiva no que respeita a território francês, mas breve nos restantes casos. No seguimento, para colmatar a falha, surge uma N.R. (nota do revisor português) indicando o artigo “História do Movimento Anarquista em Portugal” da Wikipédia. Já consultei e recomendo, apesar das especificidades desta ‘enciclopédia de código aberto’, e da facilidade com que qualquer interessado encontra, em qualquer biblioteca pública títulos relacionados com o tema, e com sentido crítico, rapidamente se aperceber da apropriação por parte do PCP do espólio e da história do Anarco-sindicalismo português.

No final deste último ‘Momento’ ficamos com a impressão que o Anarquismo, nas suas variadas tendências está actualmente universalmente difundido, e tem expressões muito diversas, consoante o contexto local. Reforçamos a ideia, ao contrário do pensamento do autor, que uma sistematização deste fenómeno, com uma revisão actual, seria um fascinante objecto de estudo, apartando-nos do princípio da filiação mais ou menos consistente, ainda que autónoma, das raízes libertárias no seio do ‘movimento proletário’, da qual Préposiet nunca parece querer se desligar.

Sem prejuízo do trabalho levado a cabo pelo Centre international de rechercher sur l’anarchisme (CIRA) de Lausana e do Internationaal Instituut voor sociale Geschiedenis de Amesterdão, seria interessante um trabalho, certamente titânico, que poderia nascer destas reflexões sobre os vazios encontrados nesta Obra – HISTÓRIA DO ANARQUISMO de Jean Préposiet.

Deixo a todos os leitores, mas sobretudo ao meu caro Flávio Gonçalves, o rastilho para futuro trabalho, ao qual gostaria de estender a minha entusiasmada colaboração!

Amarante, 27 de Julho de 2008
[Filipe Miguel Dias Cardoso]
urgrund@oninet.pt

Análise ao Capítulo V – A Espanha e o Colectivismo Libertário

A Espanha Libertária dos anos 30 do séc. XX foi o mais visível momento histórico, onde de facto, se pôs em prática as ideias libertárias, em grande escala. Aqui os anarquistas foram directos ao essencial. Sendo que “Em Espanha, o anarquismo – (que) em certas regiões da Península tinha por si só, antes de 1943, representado todo o movimento proletário,...” p.114.

A acção decorreu no campo económico e social, adquirindo a forma de Colectivismo espontâneo, no campo (Aragão), na Indústria (Catalunha), mas também na gestão política de áreas urbanas (Barcelona). “Quer se tratasse da Catalunha, de Múrcia, da Extremadura [sic da tradução] ou da Andaluzia, as massas permaneciam fiéis ao ideal anti-autoritário da velha AIT, ideal este introduzido em Espanha no século XIX por Bakunine e pelos seus partidários.” p.122. Por isso mereceu, com todo o mérito, a especial atenção de Préposiet, com a elaboração de um capitulo inteiramente dedicado ao tema.

Os 2 sectores de demonstração da realização do Colectivismo (ou Comunismo?) Libertário em solo espanhol, apresentados pelo autor, foram a Agricultura e a Indústria. Pena é, com a sua tendência positivista, o cingir esta apresentação aos factos históricos mais economicistas, e ser indiferente a toda uma ‘psicologia anarquista’ profundamente enraizada no povo catalão e andaluz. A falta de uma contextualização mais abrangente com todas as implicações que uma verdadeira Revolução teve a todos os níveis, nomeadamente sociais, culturais e educacionais. Neste último vector será interessante reter o seguinte artigo Anarquismo español y educación de Ovejero Bernal, A. da Universidad de Valladolid (Espanha), publicado na Revista Athenea Digital [8: 145-158] disponível em http://antalya.uab.es/athenea/num8/ovejero.pdf para download [ou em no centro digital Pluridoc de publicações académicas, gratuitamente mas mediante registo em http://www.pluridoc.com/Site/FrontOffice/Default.aspx?module=Files/FileDownload&ID=1474&Free=1&state=FD], que nos dá uma interessante visão da preocupação educacional e cultural dos libertários espanhóis, como meio para a mudança social.

Na Agricultura a Colectivização iniciou-se em Aragão e, depois, na região do Levante, onde a Federação Regional filiada na CNT (Confederación Nacional del trabajo: central sindical anarquista) liderou o movimento, estendendo-se a Castela-a-Nova e Castela-a-Velha, e chegou às proximidades de Madrid pela mão da Federação dos Trabalhadores da Terra, que era filiada na UGT (Unión General de Trabajadores: central sindical socialista) mas fortemente influenciada pelos modelos libertários de Aragão.

Na Indústria, o campo de acção deu-se na Catalunha (politicamente controlada pelo Comité Regional das milícias antifascistas) e foi dominado pelo CNT e pela FAI (Federación Anarquista Ibérica). A Colectivização industrial teve lugar nesta região fortemente industrializada, sendo legalizada oficialmente pelo governo catalão. Um exemplo de boa prática (e com aumento considerável de lucros) foi a autogestão operária da Companhia Geral dos Eléctricos de Barcelona.

O sangrento confronto que teve lugar em Barcelona no verão de 1937, opondo Republicanos ‘Legalistas’ (reformistas moderados e representantes da pequena burguesia sob o escudo do Comunismo moscovita no seio do PSUC - Partido Socialista Unificado de Cataluna: socialistas-comunistas) e Republicanos ‘Maximalistas’ (anarquistas e socialistas de esquerda aliados ao POUM - Partido Obrero de Unificación Marxista: trotskistas), com a vitória dos primeiros, pôs termo ao domínio catalão anarco-sindicalista e levou, a breve prazo, ao fim das experiências de Colectivismo Libertário em Espanha.

Foi a paradoxal vitória da ‘propriedade privada’ contra a ‘Colectivização’ e a Revolução, considerada preocupante pela sua espontaneidade, perigosa pela tentativa de transformação radical da sociedade e incompatível com os progressos militares na luta contra o ‘franquismo’.

Amarante, 29 de Julho de 2008
[Filipe Miguel Dias Cardoso]
urgrund@oninet.pt

Sábado, Julho 12

Raízes históricas

Realmente é possível contemplar o anarquismo como uma forma de vida, é realmente muito possível contemplá-lo deste modo quando não se conhece a doutrina do anarquismo. Filosofia de vida? Sim, certamente, mas tem os seus preceitos e esses são mais do que ser individualista, egoísta e anti-social.

Agradou-me a menção à sociedade grega, verdade seja dita que a Democracia grega é uma das inspirações do nacional-anarquismo moderno, com as suas cidades-Estado, verdadeiras comunidades autosuficientes. Infelizmente a coisa descamba quando o filósofo-historiador aponta os cínicos e a posição anti-social de Diógenes como precursores do anarquismo… e o anarquismo só há algumas décadas para cá fundamentou as suas vertentes anti-civilização e primitivista, na doutrina do eco-anarquismo (ausente desta obra).

A respeito do resto deste capítulo, o autor confunde deliberadamente heresia e libertinagem com anarquismo… e até chagarmos à parte dedicada a Henry Thoreau não entendi nada, admito sem qualquer vergonha a minha ignorância, e mesmo assim estraga uma excelente síntese com o último parágrafo, associando novamente anarquismo a individualismo e mencionando, apenas Deus saberá porquê, Ghandi (!!) e Martin Luther King (!!!).

Lisboa, 10 de Julho de 2008
[Flávio Gonçalves]
flaviocapelo@gmail.com

Curta nota à primeira parte

Caro Miguel,

Vejo agora que não é por acaso que tive tanta dificuldade em interpretar a primeira parte desta obra, está tão confusa que por momentos julguei se não estaria em alguma cifra encriptada, se as minhas faculdades mentais me estariam a falhar ou se o tradutor teria sido completamente desleixado – não me parece, a avaliar pelas restantes partes da obra. Esta primeira parte certamente foi escrita para filósofos e não para o público comum.

Sinceramente não sei que diga acerca desta primeira parte. Parece-me que serviu somente para “encher chouriço”, em ensaio filosófico que está a mais numa obra que se quer de História.

Lisboa, 01 de Julho de 2008
[Flávio Gonçalves]
flaviocapelo@gmail.com